Vivemos em uma sociedade na qual o poder representa conquistas. Quando pensamos em pessoas poderosas, o estereótipo que vem à mente é de indivíduos que possuem grandes empresas, posses, influência e dominação perante situações, pessoas, processos e até mesmo o rumo que uma nação pode tomar. Em outras palavras, estamos condicionados a entender o conceito de poder como algo que implica o controle sobre determinadas situações, e na grande maioria das vezes, traz mais benefícios para aquele que está com o domínio da situação.

 

Esse mindset pode ser responsável por uma série de problemas em âmbitos mais individuais, como a ambição desenfreada, a avareza, a arrogância e a gana por conquistar os seus objetivos custe o que custar, mesmo se o preço for a própria saúde ou a felicidade das pessoas ao seu redor. Da mesma forma, o conceito convencional de poder também pode explicar fenômenos sociais como guerras, conflitos entre povos e choques culturais.

 

Andando em paralelo a todo esse contexto, aquilo que entendemos sobre o termo “poder” também pode ser aplicado em uma linha do tempo associada ao desenvolvimento da sociedade e das pessoas: conforme a humanidade foi se desenvolvendo, mais reconhecimento os poderosos receberam, e por consequência, a conquista do poder tornou-se o grande objetivo de vida da maioria das pessoas. Se somarmos esse pensamento com o crescimento da internet e das redes sociais que tornou o acesso à informação algo palpável e simples, conseguimos entender também o crescimento no número de casos – e até mesmo o surgimento – de doenças que envolvem o psicológico, como a depressão, transtornos de ansiedade e outras doenças relacionadas, chamadas comumente de “mal do século”.

 

Logicamente, todo este panorama que envolve o conceito convencional de “poder” traz muito mais malefícios do que benefícios quando aplicamos a ótica do autoconhecimento e desenvolvimento como ser humano. O termo “poder” traz atrelado a si, na maioria dos casos, o egoísmo e a indiferença, entre outras atitudes que culminam na estagnação de nossa evolução como seres humanos. Não é difícil perceber que quando perseguimos o poder com todas as nossas forças, estamos andando na direção contrária do amor ao próximo e a nossa plena felicidade.

A IMAGEM DO PODER

Ao pararmos para pensar, esse contexto nos traz questionamentos e provocações: qual a razão, de fato, de se tornar poderoso? Vale a pena entrar em um círculo vicioso com o intuito de alcançar algo subjetivo e que supostamente nos colocaria em situações tristes e complexas?

 

E é neste ponto que começamos a entender uma outra faceta do significado de poder que estamos condicionados a acreditar: pessoas poderosas possuem fortunas, garantindo conforto e felicidade; beleza, pois inconscientemente atribuímos este adjetivo a pessoas poderosas; força para conseguir comandar situações, pessoas e processos e fama, o ápice do individualismo. Ou seja, busca-se o poder para que esses pontos sejam preenchidos, uma vez que estamos condicionados a acreditar que tais fatores são os responsáveis pela plena felicidade, evolução e reconhecimento.

 

E não é difícil confirmar isso na vida real: quando pensamos em pessoas bem-sucedidas, o que vem à nossa mente? Na grande maioria dos casos, nosso pensamento volta-se a grandes empresários, artistas e famosos, que possuem seus talentos reconhecidos, vida de cinema e uma farta conta bancária. Logicamente, não há problema em nenhum desses pontos, porém, este exercício torna nítido o quão condicionados somos a atribuir sucesso àqueles que estão no topo de suas profissões e muitas vezes não valorizamos as pequenas realizações que podem significar muito mais do que parecem.

 

O cerne de todo esse contexto pode ser entendido como a forma que entendemos o “poder” e o “sucesso” desde que fazemos. Então, sem perceber, vivemos de maneira a alcançar o poder para sermos aceitos em nossa sociedade, o que implica em graves danos a nós e àqueles que nos cercam.

De todo modo, a explicação sobre o conceito de poder e o que ele pode impactar na nossa sociedade é uma discussão complexa e longa. Entretanto, há algo que podemos começar a trabalhar dentro de nossos corações e lutar para que seja realmente aplicado no dia a dia: a ressignificação do poder.

 

Ao transformarmos o conceito de poder, damos os primeiros e importantes passos para uma sociedade cada vez mais humana, consciente e igualitária. Embora seja um processo difícil, afinal, crescemos e vivemos em função de um conceito tradicional quase que pétreo, é necessário trabalharmos diariamente para que o conceito seja transformado, para que assim emerja uma nova sociedade mais justa e humanitária na qual nossos filhos e netos terão o prazer de viver.

A NOVA IMAGEM DO PODER

A ressignificação do poder consiste na quebra do conceito tradicional do termo, que envolve dominação por uma visão muito mais leve, pautada no cuidado com o outro; integração entre os povos independente de credos, cores e raças; no servir ao outro e na paz em estar em paz com as demais pessoas. Em outras palavras, para uma nova sociedade, é necessário que entendamos o poder como algo que nos une e nos aproxima, criando um inconsciente de ajuda mútua e cooperação.

 

Para exemplificar este novo conceito, podemos analisar rapidamente o Papa Francisco, a maior entidade da Igreja Católica. Independente de crença e religião, é possível reconhecer a mudança que aconteceu no Vaticano. Até então, o posto era cercado de garbo e status, ostentando peças de ouro maciço e estruturas de acomodações surreais, entre outros pontos. Todo esse cenário era importante na fixação do poder que o Papa e Igreja Católica possuíam dentro do conceito – agora antigo – de poder. Entretanto, o Papa Francisco assumiu o papel com uma visão muito mais humana e próxima das pessoas, abdicando do luxo e da vida de celebridade. Com isso, podemos concluir que o novo Papa foi revolucionário quando foi um dos primeiros grandes nomes mundiais a refutar o significado de “poder” e propor um outro sentido muito mais suave e belo.

Ou seja, o “poder” atual consiste na felicidade dos povos e na simplicidade. Poderoso é aquele que consegue unir e tirar o máximo dos outros, ao invés de separar e comandar as massas de modo frio e distante. Em outras palavras, o novo significado de poder anda muito mais ao lado dos preceitos do autoconhecimento, autoamor e felicidade, pontos intrínsecos a uma vida mais tranquila, bela e livre de quaisquer cobranças emocionais que culminam no apequenamento do ser.

 

E todo esse novo contexto também pode ser aplicado nas pequenas situações de nosso cotidiano. Afinal, ao estabelecer a ressignificação do poder como algo importante no seu dia a dia, inconscientemente você estará mais propenso a tomar decisões mais comunitárias, sábias e que entreguem algo positivo na vida dos outros, formando assim um círculo virtuoso para sua família, amigos e colegas de trabalho. Também podemos aplica-lo em grandes executivos e líderes de empresas: o que é melhor? Um chefe que comanda, pune e cobra ferrenhamente seus funcionários, ou um chefe que entenda a gestão de time e que consiga tirar o melhor do potencial de seus funcionários por meio de atitudes humanas no dia a dia?

 

A ressignificação do poder, embora ainda pequena e pouco difundida ao redor do mundo, vem ganhando muita força nos últimos meses, e com certeza é uma das chaves para alcançarmos uma sociedade cada vez melhor em todos os aspectos. Afinal, se estamos fadados a uma vida em que é necessário produzir e trabalhar, que esta seja então desenvolvida com preceitos humanitários e comunitários. Em uma futura sociedade hipotética, estaremos rodeados de pessoas que buscam a plena realização em ajudar os outros a serem felizes!

 

“Olho por olho, e o mundo acabará cego”, disse o genial Mahatma Gandhi. Frase esta que pode ser aplicada para a nossa presente reflexão, na qual pessoas que se apoiam no conceito antigo de poder buscam seu sucesso de maneira individual e destrutiva para os demais. Porém, estamos em face a um horizonte iluminado e cheio de esperança: a ressignificação do poder, quando a sociedade entenderá de uma vez por todas que a verdadeira força é cheia de paz.

 

 

Fonte: ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA CORRETORA DO FUTURO

26ª edição | Ano 5 | 2018 | out/nov/dez