Como dialogar sem acusar? Esta é uma pergunta que tenho me feito. Quando nos relacionamos com as pessoas num momento tão desafiador no Brasil e no mundo, sinto que nos perdemos, perdemos a noção do que é um diálogo. Cada um que expõe suas ideias é automaticamente rechaçado e acusado por quem o escuta ou lê nas redes sociais e nossos diálogos se tornam trocas de acusações.

Estamos tão acuados diante de um cenário de incertezas que a resposta disso tem sido uma grande discussão sem sentido. Situações de incertezas nos levam a acessar, inconscientemente, emoções que ainda não aprendemos a lidar, como medo, raiva, frustração, vergonha. Dessa forma projetamos nos outros nossos próprios conflitos internos e acabamos por tornar inimigos todos os que pensam diferente de nós.

Percebo que para um diálogo acontecer é preciso que tenhamos a boa vontade de ouvir sem julgamentos as ideias do outro, quem sabe desta maneira poderemos aprender uns com os outros. O diálogo é composto por falas e escutas, cada interlocutor tem uma percepção da realidade conforme suas experiências, sua educação, seus pontos de vistas, e, se partimos dessa premissa, podemos compreender que é possível haver um caminho de aprendizado.

A defesa incondicional dos nossos pontos de vistas não facilita o diálogo, desta maneira estaremos tão apegados a uma visão que não abrimos espaços para outras possibilidades. No livro ‘Os cinco níveis de apego’, de Dom Miguel Ruiz Jr, o autor descreve que podemos estar tão unidos às nossas verdades que chegamos ao nível do fanatismo, que este é o extremo do apego. Quando nos abrimos para o novo, quando nos percebemos melhor, quando temos mais consciência de quem somos, vamos perdendo a necessidade de impor nossas ideias e nos abrimos, sem apegos, a escutar o que os outros têm a dizer. Podemos abrir espaço para surgir ideias novas, que incluem os pontos de vistas de todos que estão dialogando.

Quanto menos apegados à nossa forma de ver o mundo e mais abertos e curiosos para compreender a visão de mundo dos outros, nossa própria vida se torna mais interessante, pois ampliamos a visão e crescemos juntos. Sinto que num momento tão importante de nossa história, a habilidade de ouvir nos ajudará muito daqui pra frente. A complexidade da situação atual requer uma forma menos tensa, menos combatente de se relacionar com os outros. Começando dentro de nossos lares e se expandindo para todas as nossas interações com as pessoas. É um treino. A cada início de conversa é preciso lembrar da premissa de que a nossa forma de ver o mundo não é a única, não tem a prerrogativa de ser a verdade absoluta.

Ao olharmos pra dentro de nós, vamos perceber que interpretamos a realidade conforme nossas experiências vividas, a forma como fomos educados, as crenças e os valores familiares, a cultura, a época. Somente desta perspectiva já podemos imaginar que isso vale para todos nós. E a cada expressão nossa na vida estamos apenas reproduzindo nosso repertório interno. De que forma imaginamos que podemos convencer o outro a ver a vida da mesma forma?

Sinto que ao respeitarmos nossa própria história, acolhermos quem somos, sem tantos julgamentos de certo ou errado, passamos a respeitar a história dos demais. As experiências que vivemos são únicas e quando compartilhamos com os outros e somos ouvidos, evoluímos e aprendemos novas possibilidades.

Que possamos a cada dia aprender mais e mais, sempre abertos ao diálogo. Dessa forma, com respeito próprio e aos outros, iremos construir um mundo novo. Depende somente “de mim”. Se tudo o que você leu até aqui fez sentido pra você, vamos juntos! Já está mais do que na hora de assumirmos nossa responsabilidade no caos que tanto reclamamos. Autoconhecimento, autorresponsabilidade e autoamor!

 

Fonte: ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA CORRETORA DO FUTURO

32ª edição | ano 6 | 2020 | abr/mai/jun